As Equações de Maxwell e a Acessibilidade

Nos anos 80 passava uma série nas manhãs de sábado: Cosmos. Escrita e apresentado por Carl Sagan, essa série foi responsável por boa parte da minha formação.

Eu realmente adorava a série.

Uma das passagens que lembro de memória – memória de criança – é sobre as equações de Maxwell e a TV. De nada adiantaria que a rainha Elizabeth Vitória gastasse toda sua fortuna na época para que seus cientistas e filósofos inventassem a TV. Para que a TV fosse possível, muitas outras coisas tiveram que ser criadas e descobertas antes. É preciso que exista uma massa crítica de pessoas e conhecimentos para que algumas invenções ou ideias vinguem na no cultura. E isso leva tempo. Muitas vezes mais tempo que a vida de uma pessoa.

Invenções, informações, descobertas demoram a ser assimiladas. Diga isso a Darwin e a evolução, Galileu e o nosso sistema solar. Verdades são como árvores, elas demoram a criar raízes.

A acessibilidade começou a ser tratada como algo importante ha pouco tempo. Na verdade, se for contar como um marco inicia a luta dos ex-combatentes do Vietnã, eu já tinha nascido e já assistia TV. É muito pouco tempo. E até pouco tempo atrás, não existia internet. Quando saí da casa dos meus pais, aos 23 anos, a internet ainda era discada e continuou assim por um bom tempo. Ninguém tinha muita ideia do que fazer com essa nova tecnologia, então, foi-se experimentando. Algumas coisas foram legais, outras nem tanto. Como toda tecnologia nova, ela deu início a uma série de outras, e isso não acabou ainda.

Mas o primeiro movimento em busca de uma web de todos é, olha, de 1998. No Brasil, 2004, quase 2005. E a acessibilidade foi vista como um filão comercial por pouco visionários, como Steve Jobs, mais ou menos nessa época. Garanto que o iPhone – um dos telefones mais acessíveis que eu conheço – não é assim porque o Steve era um cara bonzinho.

A tecnologia, em especial a Web, vai levar muitas dessas pessoas – hoje dadas como cidadãos de segunda linha – para a frente de trabalho e mercado. Há grandes nichos de mercados inexplorados, empregos a serem criados e vagas a serem preenchidas. Há muito trabalho a fazer.

E para tanto, necessitamos de capacitação. É necessário que o conhecimento, as informações sobre acessibilidade sejam passadas assimiladas por todos (ou por um grande número de pessoas). Talvez nem todos precisem saber como aplicar a acessibilidade, mas elas devem saber que isso é importante. Tão importante quanto vacinar seus filhos, tão presente quanto a TV da sala. Tão trivial quanto dizer “Bom dia!”

Capacitar, informar pessoas não é uma tarefa trivial. Não só pela quantidade de pessoas que existem no mundo (são muitas!), mas convencê-las de que essa informação é util e deve ser aplicada no seu dia-a-dia, no seu trabalho. Como convencer essas pessoas?

Nesse ponto, acredito que o papel do professor – aquela pessoa que inspira, não “aquela que dá aulas” – é essencial. E é algo que me vem preocupando por esses dias. É bom ver caras novas, é bom saber que você está ficando velho no assunto. Mas não é bom ver amigos, colegas, desolados, amargurados, decepcionados com a falta de acessibilidade em nossos sítios e falta de interesse de algumas pessoas. Talvez a perda de duas pessoas muito queridas tenha agravado esses sentimentos.

O que eu gostaria de dizer para todos eles: calma.

Talvez não consigamos uma web para todos no nosso período de vida, mas podemos ensinar, capacitar pessoas que continuem o trabalho. A tecnologia continuará evoluindo e é importante que ela evolua incluindo a todos. Um dia teremos um mundo mais acessível a todos, possivelmente não estaremos vivos para ver isso, mas será legal se despedir pensando que fizemos a nossa parte. Acredito que a acessibilidade um dia será algo tão corriqueiro quanto é hoje o uso do celular. Mas para isso acontecer, muito trabalho – sem uma recompensa visível a curto prazo – ainda deve ser feito.

Não trabalhe pensando no hoje, ou no amanhã. Trabalhe para o futuro, inspire as pessoas.