VLibras – relato pessoal e um pedido

Computador com Vlibras sendo utilizado por uma pessoa de costas.

Publicado originalmente no PULSE.

Em meados de 2009 recebíamos cerca de uma ou duas reclamações sobre a falta de Libras (Língua Brasileira de Sinais) nos sites do governo e recebíamos visitas semestrais de empresas que vendiam plugins com Libras. Todos com avaliações questionáveis, com queixas de excesso de soletração, falta de contexto e caras, muito caras para um departamento pequeno e orçamento apertado.

Na época eu tinha uma séria convicção que o mercado devia resolver o assunto. Usar um plugin no site do GOV.BR sempre me parecera uma solução pouco elegante e egoísta. Resolvia nosso problema, mas os surdos gostariam de ter acesso apenas a um punhado de sites de bancos, entidades, governo?

Mas a tecnologia não parecia pronta, não estava madura.
Em 2012 na palestra de abertura do WebBr, Luli Radfharer falou algo que me deu um estalo: “…e o Kinect é hackeável”. Na hora pensei: “isso significa que a tecnologia de captura de movimento vai baratear”. Isso significava uma possibilidade de barateamento e disseminação da produção de conteúdo em Libras.

Era só aguardar que as soluções iriam começar a aparecer, certo? O mercado de leitores de tela para cegos já era algo maduro: soluções gratuítas proprietárias e de código aberto, soluções pagas de código aberto e propritárias. Por que não um Leitor de tela Libras? Mas não foi o que aconteceu e numa das visitas de uma das soluções ao departamento, perguntamos o porquê de não fazer uma solução um leitor de tela Libras. A resposta? “Nós já desenvolvemos isso, mas não é interessante mercadologicamente”. Era mais interessante vender o serviço de plugin para apenas um site que dar acessibilidade a todos os surdos a qualquer site. Claro, o plugin era vendido a preço de milhões. Sem brincadeira, a compra de uma solução dessas custara quase de 2 milhões.

E era o dinheiro gasto em apenas um site, que teria que ser gasto novamente, depois de um tempo, devido a manutenção e adição de novos conteúdos.

As soluções novas apareciam com o mesmo modelo de negócio, eram “gratuítas” para algumas funções, para um grupo de pessoas, mas ganhavam em manter a Web “cercada”. Surdos fluentes em Libras apenas teriam acesso a quem comprasse uma das soluções.

Após muito discutir, o departamento fechou com a ideia de buscar uma solução que ainda não tivesse saído da academia. Pois, oras, todas as soluções comerciais tinham nascido de trabalhos universitários. Por que não sairia outra? De fato muitas soluções estavam sendo desenvolvidas, muitas parciais, outras ainda no campo experimental, até que a SDH chegou com o trabalho do Lavid da UFPB. Era final de 2013 e na reunião a equipe do DGE saraivou os representantes do UFPB com todo tipo de pergunta. O pessoal da UFPB se saiu bem, eles tinham a experiencia de trabalhar com diversos parceiros – tinham desenvolvido o Ginga – tinham experiência em trabalhar com o governo e, o melhor, o produto tinha uma certa maturidade (contrataríamos alguém que sabia o que estava fazendo).
Claro que contratar algo tão novo no governo não foi fácil, ainda mais em 2014, ano da Copa. Convencer, apresentar a solução para mais de 40 órgãos, chamar pessoas, captar recursos, a paciência de todos era fundamental, devido as várias idas e voltas. Com o apoio da SDH, mas sem uma resposta objetiva dos demais órgãos, resolvemos que íamos encampar a primeira fase, no mais puro “Construa e eles virão” .

Termo feito, orçamento alocado, publicado no DOU (Diario Oficial da União). Trabalho na calma? Nada disso. Enquanto o Lavid entregava tudo com esmero e acertado (até os relatórios solicitados pela gerencia que eu achava que apenas atrapalhavam o andamento da solução), o DGE recebia uma auditoria do TCU questionando a validade da solução. Cortes no orçamento ameaçavam o projeto e, numa reestruturação de departamento, acabei por ser exonerada.

Meu último trabalho foi ajudar a escrever a Nota Técnica de resposta ao TCU. Saí preocupada com o projeto, com a acessibilidade e com a equipe. Não duvidava da capacidade deles, mas a equipe sempre foi visada pela sua qualidade, eles eram espertos, bem treinados – qualquer um que trabalhe com acessibilidade no governo desenvolve um jogo de cintura. Desde que entraram, vi com satisfação (e com uma pontinha de inveja) seu desenvolvimento, eles me superarem em diversos campos. Eles davam conta do recado sim, mas nunca podemos subestimar a capacidade de uma reestruturação, uma má gestão acabar com uma equipe.

A partir de junho de 2015, passei para o lado que assiste e pouco mais podia além de assistir. A divulgação dos trabalhos na página do Vlibras no Facebook e algumas discussões me permitiam ver que o projeto andava. O acordo com a Câmara dos Deputados deu mais força ao projeto e foi algo costurado após minha saída. “O pessoal está indo bem”.

E foi com felicidade (e alívio) que hoje vi o Vlibras ser lançado oficialmente, na data certa, seguindo o cronograma.
Vi o Sérgio Caribé do TCU dizer que como o projeto do Vlibras em todo seu andamento é um exemplo a ser seguido pela Administração Pública. Vi mais gente importante nesse evento por metro quadrado como nunca tinha visto antes em um evento de acessibilidade.

Vi Tiago Maritan apresentar a suíte de forma didática (alguém me passa a apresentação?), com um brilho nos olhos de quem vê um trabalho muito querido sair do forno.
E o melhor de tudo, revi minha antiga equipe, madura (alguns barbudos) e posso dizer que tive um BAITA ORGULHO deles. E diria isso para cada um deles (acho que disse para alguns), e para todos os outros que, como eu, não estão mais lá.
Caras, eu tenho maior orgulho de vocês.

Apesar de todos os benefícios do Vlibras sei como foi difícil convencer a alta direção de sua necessidade, resistir a pressão de agentes externos e manter em dia (sim! o projeto foi entregue no prazo!) um projeto tão diferente e inovador. Os desafios não foram pequenos, cortes no orçamento, reestruturações de equipe e pressões externas.
O pessoal do (antigo) Departamento de Governo Eletrônico conseguiu manter , no meio dessa turbulência toda, um projeto que beneficiará milhões de pessoas, que abrirá novas oportunidades de desenvolvimento em Tecnologia Assistiva.

Quem for esperto aproveitará para desenvolver sistemas, eu sugeriria ligados à educação, fazendo uma ponte entre surdos e ouvintes.

O VLibras

O Vlibras que foi lançado hoje (5 de maio de 2016) possui mais de 11 mil sinais, talvez o maior conjunto desenvolvido até o momento, só possível por ser uma solução livre, pública e aberta.
O software tradutor está em pé de igualdade com as soluções comerciais com o diferencial de ser aberto e permitir o acesso pleno a Web e demais conteúdos, como arquivos pdf armazenados no computador.

Desafios

Mas ainda há muito trabalho a ser feito. O mecanismo de contexto precisam ser afinados e, para que isso aconteça, há a necessidade de se parear conteúdos em Libras e em Português, um desafio bem maior de ser parear duas línguas escritas, como Tiago Maritan narrou ao falar de sua conversa com a equipe do tradutor automático do Google.
Se você tem conteúdos apresentados em português e Libras, entre em contato com o govbr@planejamento.gov.br.

Para que o Vlibras possa, de fato, beneficiar milhares de pessoas, ele precisa que as pessoas se envolvam com ele. Que conheçam a suíte, instalem, testem, peçam melhorias, façam vídeos com sinais e enviem ao WikiLibras. Que designers, ilustradores, programadores de 3D brinquem com o sistema e traduzam sinais.

Para o Vlibras dar certo, ser um instrumento de autonomia das pessoas surdas, ele precisa que você que está lendo, divulgue a solução, participe, tire dúvidas.
Um software só é livre e público quando é usado e modificado pelas pessoas.

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