É menino ou menina? – parte 1

Se você vai comprar algo para uma criança, é possível que já tenha ouvido falar: – É menino ou menina?

No meu caso eu já perdi a conta. De papel ofício para escola (sim, papel ofício), a Kinder ovo, todo mundo me pergunta o sexo da compra. E a partir disso define se vou receber algo rosa, cheio de babados e brilhos ou algo com super-heróis, azul, verde e marrom.

Quando rebato – não vem ao caso – funcionárias confusas entram em curto – COMO NÃO IMPORTA??? – toda a experiência de venda delas está baseada nisso.

Conversando sobre o assunto e ouvindo conversas, tenho a percepção de que as pessoas a minha volta acha que sempre foi assim. Muitos pais, ao descobrir que vem uma menina, já tratam de comprar coisas rosa, tudo rosa. A coisa vai meio na inércia e na necessidade de aceitação que cada ser humano tem.

Mas nem sempre foi assim.

Me lembro, na minha infância de ter uma miríade de brinquedos coloridos: joguinhos de chá, bonecas, cavalos, bercinhos. As fotos da época não mentem. Meu quarto (e da minha irmã) era pura cor. Olhando as propagandas da época de 80 (achadas no site Propaganda de Gibi), podemos ver que a vida das crianças das décadas passadas eram mais coloridas.

Propaganda de panelinhas da Turma da Hanna Barbera

O mesmo vale para materiais escolares. É uma tarefa inglória encontrar uma mochila que não diga claramente “sou para meninas” ou “sou para meninos”. Rosa e brilhos para mochilas femininas e super heróis em mochilas masculinas. Tarefa ingrata achar uma mochila de rodinhas prática, sem personagens, sem rosa, para minhas filhas.

Nem sempre foi assim:

Propaganda de mochilas da turma da  Mônica

Claro, aquela época, apesar de não existir tablets, as crianças não carregavam o mundo nas costas. Hoje, são tantos livros que as rodinhas se tornaram um incômodo necessário.

Uma pergunta que me batia na cabeça era: quando essa loucura começou?
Para tentar encontrar indícios de quando isso aconteceu, comecei a procurar na web, pistas de como isso começou.

Muitos dos artigos encontrados referem-se ao Pink Stinks, um dos primeiros sites engajados contra o “pinkification” de meninas e a separação precoce entre os sexos. No site brasileiro Milc – Movimento pela infância livre de consumismo, encontrei pistas sobre como começou a separação de meninas e meninos.

Em 1980, a Comissão Federal de Comunicação Americana removeu limitações antigas sobre publicidade infantil. A regulamentação com relação à mídia direcionada à infância foi relaxada e crianças passaram a ser vistas pelo mercado como consumidores em potencial. Segmentar esse público aumentaria ainda mais o lucro com esse novo mercado.

imagem de três versões do brinquedo cai-não-cai: a clássica, uma versão para meninas - Torre das Princesas e uma para meninos - O Foguete do Buzz

O clássico brinquedo Cai-não-cai e suas versões.

Decidi então fazer buscas, via google, para descobrir quando essa onda chegara ao Brasil. Meu primeiro experimento foi buscar pela expressões (os links levam para as imagens em alta resolução):

Apesar da busca apresentar algumas incorreções (o boneco do Fofão aparece em quase todas), dá para notar que no caso da expressão “brinquedos de menina”, o numero de brinquedos nas cores rosa toma cada vez mais espaço da tela até a década de 2000, quando todas as linhas (à exceção de uma que mostra um desenho rosa) possuem pelo menos um brinquedo rosa.

Vou realizar mais análises a partir das buscas e trazer mais informações sobre o problema.

Por enquanto leia: