Deixe de lado o smartphone e comece a desenhar

pessoa desenhando em quadro branco
Funcionária acrescenta seus rabiscos a um quadro branco durante uma reunião de trabalho na varejista Zappos. Foto: Wall Street Journal.

texto original do Globo

Empresas estão lançando mão de desenhos para estimular criatividade do empregado

Andando pelos corredores da empresa, de repente, você entra em uma sala e dá de cara com um quadro lotado de post-its coloridos, com caricaturas dos funcionários e outros tipos de desenho. A novidade não é coisa de brasileiro, não. Como mostra artigo publicado pelo site do Wall Street Journal Americas, funcionários de diversos setores estão sendo incentivados por suas empresas a demonstrar suas ideias de forma mais criativa e visual, desenhando diagramas para explicar conceitos complicados aos colegas.

Embora o quadro branco há muito figure nas salas de reunião, empresas como a Facebook agora incorporam, além deste apetrecho, quadros brancos, quadros-negros e vidros especiais para que os funcionários escrevam suas ideias, estimulando, assim, a criatividade.

As companhias também estão dando sessões de treinamento para ensinar aos funcionários os princípios básicos da chamada “anotação visual”. Outras, como o site de imóveis de férias HomeAway e a varejista Zappos, estão contratando “anotadores gráficos”, consultores que desenham esboços do que é discutido nas reuniões e palestras, em estilo de desenho animado, para que os funcionários fiquem mais envolvidos.

Os defensores da demonstração visual dizem que o hábito de desenhar ajuda a gerar ideias, aumenta a colaboração e simplifica a comunicação. Pode ser especialmente útil entre colegas de distintas partes do mundo que não falam o mesmo idioma como primeira língua. Colocar a caneta no papel também é considerado um antídoto para a onipresença da cultura digital, fazendo com que as pessoas levantem os olhos das suas telinhas. Além disso, estudos mostram que desenhar pode ajudar a reter mais informações.

Segundo o jornal americano, na Citrix Systems, empresa da Califórinia, as reuniões às vezes começam com os participantes desenhando autorretratos, como os vistos acima.

Mesmo com aparelhos avançados, como smartphones e tablets, “a mão é a maneira mais fácil de anotar”, diz Everett Katigbak, designer de comunicações na Facebook. A maioria das paredes nos escritórios da empresa nos Estados Unidos foram revestidas com tinta onde se pode escrever com marcadores coloridos, ou com tinta de quadro-negro, ou vidro especial, para permitir que os funcionários esbocem suas ideias assim que estas aparecem. Os escritórios da empresa estão recobertos de anotações, desde equações matemáticas até rabiscos mostrando gatos ou cifrões.

A IdeaPaint, fabricante de uma tinta que transforma uma superfície em quadro branco, diz que suas vendas dobraram anualmente desde que o produto foi lançado, em 2008. A empresa de Ashland, no estado americano de Massachusetts, informa que mais de metade das suas vendas vai para locais de trabalho.

Tomar notas e desenhar também pode ajudar os funcionários a manter a concentração. Um estudo de 2009 publicado na revista “Applied Cognitive Psychology” constatou que pessoas que desenham ou rabiscam guardam mais informações do que os que não o fazem, ao lembrar informações que foram apresentadas em um contexto tedioso, tal como uma reunião ou videoconferência. A lógica, segundo Jackie Andrade, professora de psicologia da Universidade de Plymouth, na Inglaterra, é que desenhar ocupa a energia cognitiva apenas o suficiente para evitar que a mente comece a devanear.

Em meados do ano passado, a fabricante de software Citrix Systems Inc. abriu um espaço para a “colaboração de design” na sua sede em Santa Clara, na Califórnia. A finalidade do local é incentivar engenheiros e outros funcionários obcecados por aparelhos eletrônicos a relaxar e rabiscar suas ideias, diz Catherine Courage, diretora de design de produtos da Citrix. Os quadros brancos recobrem quase todas as paredes e mesas. Marcadores e canetas coloridas, post-its coloridos e papel para armar modelos ficam sempre à mão. Há também varetas de limpar cachimbos e bolas de espuma para fazer modelos em 3D, e os funcionários montam objetos como chapéus e óculos para ajudá-los a demonstrar suas ideias.

Para deixar os funcionários mais relaxados, as reuniões às vezes começam com os participantes esboçando autorretratos. Embora alguns engenheiros não botem fé na atividade e digam que não sabem desenhar, isso acaba colocando-os no clima, ressalta Catherine.

Audra Kalfass, engenheira de software da Citrix, diz que quando se reúne com sua equipe e há algum problema técnico, “é natural começar a desenhar coisas”. E como quase todas as superfícies nas salas de reuniões aceitam desenhos — até as mesas têm tampos de quadros brancos — “a gente logo pega um marcador e começa a desenhar”, diz ela.

Embora admita ser uma péssima desenhista, Audra afirma que não é preciso ter muita habilidade artística para se comunicar visualmente.

“São só quadrados, linhas e coisas assim, para transmitir a sua ideia”.