De defeituosos a excepcionais, expressões mudaram a história

Pessoal, estou reproduzindo aqui o texto de Paulo Wolfgang postado no portal aids.gov.br, em 2005. O texto é muito importante para não só conhecer a trajetória das designações das pessoas com deficiência como um pouco da história da inclusão dessas na sociedade.

Link original da matéria publicada em novembro de 2005

Martinha Clarete Dutra, que é cega, questiona: “Ora, eu não sou normal?”
O grupo formado por pessoas com deficiência talvez seja o que mais se sujeitou às denominações diferentes ao longo da história. Algumas delas, inclusive, documentadas por registros oficiais. A presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Martinha Clarete Dutra, diz que a expressão usada hoje é a que mais se aproxima da realidade deste grupo, sem excluir ninguém e sem permitir qualquer tipo de brincadeiras ou referências preconceituosas.

Inválido. Este era o termo usado para denominar uma pessoa com deficiência até a metade da década de 1940. Por ironia do destino, os sobreviventes da 2 Guerra Mundial venceram a primeira batalha contra o preconceito. Depois de lutar pelo País contra os nazistas e voltarem, muitas vezes, sem membros ou com problemas físicos, os soldados ganharam o direito de serem chamados de “incapacitados”.

“Mas nem todas as pessoas com deficiência são incapazes. Por isso, o Brasil se apoderou de uma expressão inglesa e passou a nos chamar de ‘defeituosos’. Não ajudou muito”, afirma Martinha. Mas os avanços continuaram e, em 1970, o grupo foi “promovido”. “Passamos a ser excepcionais”, conta a presidente do conselho.

A denominação perdurou até 1981, Ano Internacional da Pessoa com Deficiência. Na ocasião, ficou decidido que tal grupo seria tratado como portador de deficiência. “Mas se você é portador, pode abrir mão do que está portando. A pessoa com deficiência não tem essa opção e, portanto, o termo também não se aplicava corretamente”, opina Martinha.

Em 1994, ano da Declaração dos Direitos da Pessoa com Deficiência, a referência atingiu o cume do politicamente correto. Foi quando a expressão “pessoa com necessidade especial” ganhou força. “Na realidade, era somente mais um eufemismo, muito mal-aplicado, por sinal. Tanto a fome quanto o desejo de ter uma Ferrari podem ser entendidos como uma necessidade especial”, diz ela.

Os primeiros passos na direção correta foram finalmente dados em 1998, quando um encontro nacional realizado em Recife (PE) definiu o grupo como de deficientes físicos. “Foi um passo positivo, mas ainda restrito, já que eu, por exemplo, tenho uma deficiência sensorial, e não física”, explica Martinha. O fim do preconceito aconteceu, finalmente, quando o termo “pessoa com deficiência”, foi escolhido. “É uma expressão que traduz a realidade, sem juízo de valor ou eufemismos”, avalia.
Martinha reconhece, no entanto, que a nomenclatura não pode ser imposta à sociedade. Como o próprio professor Joaquim Silva explica, expressões só são assimiladas quando isto acontece de forma natural, como é o caso das gírias. ”Ninguém precisa se policiar para ser politicamente correto. Basta agir com respeito”, conclui.(A.M.)