Da catraca e da nossa cultura de culpa

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Foto do “Expresso Trovão” por César Mattos, CC BY 2.5, original

Um dia desses, no laboratório da pós, algumas pessoas falavam em bolsa e como era bom que os graduandos agora não fizessem mais parte do Ciências sem Fronteira.

Por quê?
– “Porque a maioria só usava a bolsa para passear”.
– Tem certeza? Eu acho uma pena, vi relatos de trabalhos maravilhosos feitos por graduandos que saíram.

– “Ah, mas teve um fulano que sicrano me contou”…

– Ok, mas isso não é a maioria.

“Mas a maioria faz isso mesmo”- interveio um professor.

Será que faz mesmo?

Eu observo curiosa esse nosso fenômeno brasileiro de achar que o outro vai aprontar a menos que alguém impeça. É a catraca alta, é a lista absurda de documentos para pedir qualquer benefício.

Bolsa família é bolsa esmola.
Pobre é tudo ladrão.
Nunca confie nos outros.

“Alguém sempre está querendo levar vantagem sobre você”.

É uma cultura ruim, que cria barreiras muitas vezes intransponíveis a quem precisa de um auxílio. É injusto com os outros.

E não funciona.

Quem quer pula a catraca, geralmente é alguém mais forte que o cobrador e este se cala. Mas este é grosseiro com a mãe e o filho “Tem certeza que ele tem sete anos?”.
E a senhora rebola para passar com as compras, enquanto a criança chora por se machucar na catraca.

Quem quer roubar: falsifica, suborna. Essas pessoas merecem ser investigadas e punidas no rigor da lei. Mas nunca se deveria impedir alguém de ter acesso a um beneficio pelo mal-feito de outro.

Nem todo graduando vai seguir a área acadêmica, não seria legal eles verem que tem um mundo diferente lá fora? Depois se cobre o trabalho. E, na boa, há muito TCC mais útil que muita tese.

Precisamos parar com essa cultura de achar que todo mundo quer tirar vantagem. Vamos pensar, ter empatia. Afinal somos o outro do outro.

Uma professora de religião me disse uma vez que quando apontamos o dedo, três outros estão apontados pra ti. Durante muito tempo apontei a mão inteira pra outra pessoa, tentando provar que tinha razão.

Mas não é assim que funciona.

Já tive pessoas que me roubaram, pessoas que foram ingratas comigo. Mas também tive pessoas que foram abertas, que me acolheram em suas casas, mesmo não me conhecendo. Já dividi refeições com estranhos, já emprestei dinheiro a estranhos (e tive retorno), já vi até taxistas legais.

E essas pessoas não são uma exceção.

Vamos desconstruir essas ideias, procurar dados, não generalizar. Vamos tentar ter menos medo uns dos outros e mais simpatia. Vamos nos indignar quando alguém perde o seu direito, seu chão, antes de dizer “vai ver que mereceu”.

E se fosse você?

Não podemos condenar nossa raça por meia dúzia de filhas-da-puta.