Contratempos ao mudar de rumo

Katsushika Hokusai - Fine Wind, Clear Morning (Gaifū kaisei) - Google Art Project

Quando você chega até o topo de onde você queria chegar, a saída é descer.

E isso nem sempre é fácil.

Em resumo, comecei a ter dúvidas das minhas capacidades. Essas dúvidas começaram um pouco antes de eu ser exonerada, quando as minhas funções no DGE passaram a ser menos técnicas e mais de gestão, ou como meu chefe na época me disse: “você vai fazer menos e mandar mais”.

Cargos de gestão sempre me incomodaram, pois você tem menos chance de estudar assuntos e por a mão na massa, mas como eu vinha de um longo tempo evitando essas responsabilidades (desde a Procempa), achei que devia topar o desafio, nem que fosse para dizer depois “Nunca mais”. No curto tempo que fui Coordenadora Geral tive pouco tempo para estudar e muita incomodação com os tramites burocráticos, reuniões intermináveis e infrutíferas. Me dava uma dor no coração toda vez que passava numa sala e via a equipe discutindo as métricas do ASES, não dava para sentar e pegar “o bonde andando” e palpitar.

Essa sensação de não conhecer os detalhes de cada projeto, de não poder participar das discussões técnicas foi avolumando em mim uma imensa frustração. E não importava o quanto eu tentasse ler os emails e ler os documentos escritos, estava sempre atrás. Enquanto isso o gabinete marcava reuniões para se discutir o livro “O monge e o executivo”. Ao mesmo tempo, percebi que não era boa em resolver conflitos interpessoais entre a equipe, lidar com pessoas problemáticas e situações conflituosas. Não, realmente, não soube lidar com algumas situações.

Quando a exoneração veio, apesar de toda tempestade emocional, de perder o projetos, de não ver mais a equipe uma parte de mim lá no fundo dava gritinhos de “IUPI!!!!! Agora eu vou poder estudar e fazer coisas!”

E assim foi. Mas a verdade é que onde eu me meti, área acadêmica, aprender a programar – sou nada. Eu não sou conhecida no sul, na UFRGS. Ouvi um professor me dizer: – “Ah! Tu faz internet, né?”. Sou mais velha que muito aluno de doutorado ou de mestrado, alguns nunca saíram da academia.

Fico repetindo o mantra que é “tudo diferença de modelo mental e que bom que ninguém me conhece ali porque posso mostrar o que sou capaz”. Mas aí tem que lidar com a desconfiança (ou falta de credibilidade) quando você fala sobre dado assunto.

Teve dias que eu desmontei. E comecei a ter dúvidas de suas capacidades quanto encontra pessoas completamente adaptadas ao meio acadêmico. Participei de uma seleção de professores e – apesar de achar que tinha me saído bem – recebi um “obrigado, mas não”. Acho que foi minha primeira negativa de emprego em quase 18 anos. Pessoas que sabem mais que você sobre um determinado assunto, negativas de trabalho, falta de adequação.

Comecei a duvidar realmente das minhas capacidades.

Ao mesmo tempo que percebo que tenho bem mais desenvoltura de encarar algo que não conheço que a maioria dos meus colegas mais novos. Cansei de ouvir: -“AH mas eu não sei mexer nisso”. Também não, mas aprendi a programar o básico de Android em duas semanas. Ao mesmo tempo que via que conseguia me apropriar de um conhecimento novo de um colega com facilidade, de ver como o conhecimento dele poderia complementar o meu em certas ações. Outro ponto, menor, é que não sou desses alunos preocupados com o que o professor vá pensar ou das ameaças de alguns (sim aconteceu), nunca tive e – possivelmente – nunca vou ter paciência com as ziquiziras dos outros.

Há uma bagagem de conhecimento que acumulei e que me ajuda a criar conexões com novos conhecimentos. E tento lembrar disso todos os dias.

Acho que nunca vou me livrar desse sentimento de insatisfação de que não sei tudo.
Mas acredito que, aos poucos, tenho conseguido domar o sentimento de que não sei nada – estudando e dando a cara a bater.